23 jan Glidesheath Slender no acesso radial: por que 1 Fr importa
Tem uma cena que se repete em muitos serviços: o caso já está planejado, o time está alinhado, a punção radial é escolhida com convicção — e, mesmo assim, a discussão volta para a mesa no último minuto.
Não é sobre a técnica em si. É sobre um detalhe que parece pequeno, mas que pesa no desfecho operacional do procedimento: qual bainha introduzir.
Porque, no mundo real, a bainha não é apenas “o começo do acesso”. Ela é a fronteira entre o que você planejou e o que você consegue executar com fluidez: troca de dispositivos, estabilidade, passagem de cateteres, tempo de manipulação, hemostasia. E, em acesso radial, esse equilíbrio fica ainda mais evidente.
É aqui que o conceito “slender” faz sentido — e onde o Glidesheath Slender (Terumo) entra como uma ferramenta que conversa com uma dor prática: precisar de diâmetro interno suficiente, sem pagar por isso com um diâmetro externo maior do que o necessário.
O dilema silencioso do radial: diâmetro interno x diâmetro externo
Quando a gente fala “Fr”, a conversa tende a simplificar demais. No dia a dia, vira quase uma etiqueta: 5 Fr, 6 Fr, 7 Fr. Só que, para o radial, essa etiqueta não conta a história completa.
O que interessa de verdade são dois “tamanhos” coexistindo na mesma bainha:
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Diâmetro interno: o espaço útil para passagem de cateteres e dispositivos.
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Diâmetro externo: o que, de fato, “ocupa” a artéria e define o tamanho da arteriotomia.
Em acesso radial, essa relação tem um impacto conhecido na literatura: a proporção entre o diâmetro interno da artéria radial e o diâmetro externo da bainha influencia fluxo e eventos relacionados ao vaso (Saito et al., 1999). E, quando a gente pensa em conforto do paciente, espasmo e preservação da função arterial, é inevitável olhar para esse “tamanho que não aparece” na etiqueta.
O ponto é simples: às vezes o procedimento pede um diâmetro interno específico, mas a anatomia do paciente pede cautela com o diâmetro externo. E é justamente nessa tensão que surgem soluções de parede ultrafina.
O que significa “parede ultrafina” na prática
A proposta do Glidesheath Slender é direta: usar tecnologia proprietária de parede fina para reduzir o diâmetro externo em 1 Fr, mantendo um diâmetro interno equivalente maior.
Na prática, isso costuma ser descrito pelo raciocínio “6 Fr em 5” (e assim por diante). Não é um truque de marketing: é uma decisão de engenharia. A parede mais fina “devolve” espaço para dentro, sem crescer tanto para fora.
Por que isso importa? Porque, para muitos pacientes — especialmente aqueles com artérias radiais menores — esse ajuste pode ser o que separa duas experiências bem diferentes:
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manter o acesso radial com o que o caso pede,
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ou precisar replanejar no meio do caminho por limitação de acesso.
E quando a gente fala em “planejamento”, não é um conceito abstrato. É operacional: previsibilidade no setup, menos troca desnecessária de bainha, menos escalada de perfil por segurança “preventiva”, mais clareza entre o que é requisito do procedimento e o que é hábito.
O segundo detalhe que ninguém quer subestimar: atrito e irritação mecânica
A outra metade da conversa raramente aparece no slide do caso, mas aparece com força no campo: atrito.
Quem faz radial com frequência sabe que nem todo acesso é “limpo”. Há anatomias tortuosas, há punções mais desafiadoras, há momentos em que a manipulação vai exigir mais paciência do que força.
O revestimento hidrofílico (como o M-Coat/Glide Technology) existe para esse cenário: facilitar inserção e remoção e reduzir a irritação mecânica associada à navegação. E há literatura apontando que o uso de revestimento hidrofílico em bainhas pode estar associado a melhor performance do acesso em termos de manipulação e eventos como espasmo (Saito et al., 2002), além de discussões amplas sobre desafios e oportunidades de melhoria no transradial (Rao, Bernat & Bertrand, 2012).
Aqui eu faço questão de ser prudente: não existe “bainha mágica”. Existe redução de atrito como componente de qualidade do procedimento, que depende de técnica, protocolo, anatomia e escolha correta de materiais. Mas também existe um fato: ignorar o atrito é deixar um risco operacional sem dono.
Menor diâmetro externo não é vaidade: é critério
Quando a gente diz que uma bainha com menor diâmetro externo pode ajudar no conforto do paciente e preservação do vaso, é importante entender o que está sendo dito (e o que não está).
Não é uma promessa. É um critério de decisão sustentado por lógica mecânica e por evidência prévia sobre a relação entre vaso e bainha. Em materiais que combinam diâmetro menor com revestimento hidrofílico, há discussão de potencial redução de eventos como espasmo arterial e oclusão radial em determinados contextos (Saito et al., 1999; Rao, Bernat & Bertrand, 2012).
E, do ponto de vista de processo, existe um efeito prático frequentemente buscado: reduzir o tamanho da arteriotomia ao escolher perfis externos menores, o que conversa com hemostasia pós-procedimento e com a intenção de reduzir risco de eventos do acesso (Rao, Bernat & Bertrand, 2012).
A palavra-chave aqui é intenção: “ajudar”, “pode contribuir”, “em muitos casos”. A decisão continua sendo clínica, caso a caso.
Três perguntas que eu gosto de fazer antes do “abre o kit”
Ao longo do tempo, eu percebi que muitos problemas do acesso não nascem na punção — nascem na escolha do setup. E eu gosto de resumir isso em três perguntas simples.
1) O que o caso realmente exige em diâmetro interno?
Se o procedimento pede determinado tipo de guia/cateter, isso precisa estar claro. Nem sempre “subir” é necessidade; às vezes é hábito.
2) A anatomia do paciente permite pagar o preço de um diâmetro externo maior?
Aqui entram fatores como calibre da artéria, tendência a espasmo, histórico do acesso e o contexto do serviço. Em artérias menores, cada decisão de perfil pesa mais.
3) Quão importante é previsibilidade na troca de dispositivos?
Em casos complexos, o que desorganiza o procedimento não é a falta de tecnologia — é a falta de fluidez. Uma escolha que reduz troca de bainha “no meio do caminho” não é detalhe: é controle.
Quando essas três respostas estão claras, o “slender” deixa de ser moda e vira ferramenta.
Qualidade e compliance: o que não pode ficar fora da conversa
Existe um ponto que, como Intermedical, a gente leva muito a sério: performance sem compliance não é performance.
Bainhas introdutoras são dispositivos de uso único, com instruções específicas de manuseio, armazenamento e descarte. Além disso, todo serviço precisa ter seus protocolos de prevenção de complicações do acesso, hemostasia e acompanhamento.
Eu sempre reforço isso porque é tentador discutir apenas “engenharia” — parede fina, coating, Fr — e esquecer o básico que sustenta segurança: rotina e rastreabilidade.
No fim, é isso que o paciente sente: não o nome do dispositivo, mas a consistência do processo.
Fechando a ideia: “caber” é uma filosofia de procedimento
Eu gosto de pensar que o transradial amadureceu quando parou de ser “a via alternativa” e virou uma filosofia de procedimento: menos agressão desnecessária, mais controle, mais previsibilidade.
O Glidesheath Slender conversa com esse amadurecimento ao atacar um dilema real: precisar de espaço por dentro, sem crescer demais por fora — e fazer isso com uma engenharia que inclui parede ultrafina e revestimento hidrofílico.
A pergunta que eu deixo, mais do que técnica, é de rotina:
na sua prática, o que mais faz o acesso radial “desandar”: a anatomia… ou o setup escolhido antes da punção?
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